Você já se perguntou: “quem sou eu?” Eu já, algumas vezes.

É bastante comum querer entender que tipo de pessoa somos. Acontece que além de compreendermos nossas identidades, também temos de estar atentos a forma como somos vistos e aos privilégios que temos. Lembra lá no primeiro post quando falamos dos conceitos básicos de diversidade? Entendemos que existem vários termos e que eles não são necessariamente relacionados.

Eu, por exemplo, sou um cara, branco, cisexual, gay e de classe média. Detenho alguns privilégios, como o de gênero (sou homem), o de concordância de gênero (não sou trans), o de cor (sou branco) e um pouco o de classe (não sou tão pobre rs). Isso quer dizer que, pensando em um mercado de trabalho cheio de vieses inconscientes, eu já começo a minha “corrida” na frente de pessoas com menos privilégios que eu.

Para entender como uma pessoa pode pertencer a mais de uma minoria e como isso interfere na vida dela, o tema do post de hoje é Interseccionalidade.

Se você está chegando agora, este post é parte de uma série sobre diversidade nas agências de comunicação:

  1. Entendendo o básico sobre diversidade!
  2. Representatividade x diversidade
  3. Inclusão e Sexismo Velado
  4. Cotas e Ações Afirmativas
  5. Por que diversidade importa?
  6. Como aumentar a diversidade nos ambientes de trabalho?

Parte 7: Interseccionalidade

Podemos entender Interseccionalidade como as perspectivas que compartilham como fio comum o reconhecimento de múltiplas identidades interligadas, que são definidas em termos de poder e privilégio sociocultural relativo e moldam as identidades e experiências individuais e coletivas das pessoas. Ou seja, como a junção de características das “minorias” traz novos desafios a quem detém estas características.

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Está bastante complexo até aqui, eu sei. Então vamos trabalhar com exemplos. Abaixo eu tento listar algumas das dimensões das opressões, todas ligadas direta ou indiretamente às oportunidades de carreira, organizadas em categorias:

Dimensão das opressõesPreocupações comuns a todos os cidadãos, porém aumentadas pela opressão sofrida por este grupo (Ser LGBT e ainda…)Defasagem ou incorreção nas representações midiáticas/Estereótipos atribuídos a este grupo
PobrezaViolência relacionada aos crimes cotidianos é aumentada pela desigualdade geográfica na distribuição da segurança pública;
Distância dos locais de trabalho diminui a produtividade e pode produzir o estigma de “preguiçoso”.
Transporte público de baixa de qualidade torna a viagem do dia-a-dia cansativa e degradante;
Formas de fala diferentes daquelas dominantes (gírias) causam discriminação;
Falta de acesso à educação formal de qualidade e aos equipamentos culturais;
Ideologia dominante favorece o trabalho resignado em busca de enriquecimento e enfraquece a luta de classes.
Favelado: o jovem malvestido que “fala errado” e é ligado ao tráfico de drogas.
Pretos, asiáticos etc.Violência cotidiana mata mais negros do que brancos no Brasil;
O recorte de classe e de etnia são muito semelhantes no Brasil.
Pressuposição de pobreza ou de criminalidade;
Hipersexualização: a diferenciação entre corpo e mente que valoriza uma certa “animalização” do corpo negro;
O mito do “racismo reverso”;
O “colorismo”: a hierarquização intrarracial de cores de pele mais claras;
A diferenciação salarial: salários menores do que os das pessoas brancas para funções semelhantes;
Não enquadramento em nenhum dos grupos de interesse (um homem negro gay, por exemplo, pode ter dificuldade de se encaixar em grupos de homens gays e também de homens negros)
Tratamento diferenciado da imprensa quando o criminoso é negro.
MulheresOs crimes cotidianos sempre podem adquirir contornos de violência sexual e requintes de crueldade misógina quando a vítima é do sexo feminino;
Espaços públicos como o transporte ou o passeio público adquirem novas significações por conta do constante medo de agressões sexuais e as precauções extras advindas deste receio;
O “empoderamento estético”: a melhora da autoestima para ignorar a necessidade de se encaixar em padrões físicos;
A diferenciação salarial é recorrente também entre mulheres
Apenas para mulheres negras: “A solidão da mulher negra”: a sensação constante de estar sendo preterida por uma mulher branca.
Pressuposição de espiritualidade, aptidão para artes ou ainda de menos inteligência emocional ou para as ciências exatas;
Vários temas de socialização (gaslighting, manterrupting, entre outros)
Incontáveis redes de diminuição do papel feminino em histórias fictícias, quase sempre secundarizadas, objetificadas ou estupidificadas;
Crimes de ódio, como o feminicídio são constantemente tratados como crimes comuns ou, ainda, existe um trabalho de culpabilização da vítima
BissexuaisPressuposição do comportamento heterormativo (um homem bissexual deve se portar como um homem heterossexual etc.);
Críticas a “indecisão” desta fase na forma de se relacionar com outros indivíduos (é lugar comum a fala de que isto é uma fase);
Não enquadramento em nenhum dos grupos de interesse (um homem bissexual, por exemplo, pode ter dificuldade de se encaixar em grupos de homens gays e também de homens heterossexuais)
Representações que omitem, aglutinam esta característica junto às outras formas de sexualidade ou ainda a invalidam.

Difícil de ler, né? Vale lembrar que esta tabela foi feita só com base nas minhas vivências e (principalmente) no que escuto dos relatos dos meus amigos. Devem existir muito mais desafios que podem derrubar a dignidade de uma pessoa e, consequentemente, fazer com que as oportunidades não sejam as mesmas. E é por isso que é tão importante pensarmos sobre a interseccionalidade.

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Na semana que vem vamos falar sobre porque a publicidade (e os publicitários) ainda são muito conservadores.

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Com amor, GKPB <3

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